terça-feira, 1 de setembro de 2009

nocturno

No caminho do lobo,
encostado ao muro,
sigo as pegadas musgosas,
quase feéricas,
fétidas,
de velhos sonhos da floresta.
Em certas noites,
(dizia-se)
abriam-se atalhos,
a Lua descorava
num festim de gloriosas
chuvas áureas.
Arfo entre dois pontos,
suspiro àquela mata,
que recorda tempos
de fantasias lerdas,
de juízos malfadados,
de intrusões malditas.
Os meus passos suam
soluçam,
suspiram
restos de vinganças,
os meus olhos vêem
garupas escoriadas,
visões almoádas
(de quando o califa imperava),
os meus ouvidos ouvem
rezas há muito esquecidas,
um tropel de imprecações;
os tempos alvorecem
na minha frente...
na busca do dia.

{Ditei-te estas palavras...}


(imagem retirada da net)

(poema originalmente publicado

no meu blogue "sopro divino")

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

vagas












Das brumas da minha tarde
volvi aos pássaros
a pique.
O ares estavam secos,
as juras tinham morrido,
infectas,
repousando,
quais estátuas jacentes,
nas lajes de poemas
já comidos pelo tempo.
Ao fundo,
dois castiçais amortecidos
pelas brisas derramadas
em fugas pendentes;
memórias puídas,
que vagos murmúrios
empedravam
no esquecimento da tua pele...

(imagem retirada da net)
(poema originalmente publicado no meu blogue sopro divino)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

troféus

Já caminha velha
a liberdade.
Vai cambaleando,
o bordão da vida
à sua esquerda.
Agora, recolhia-se,
ao fundo do Capitólio,
à direita,
a seguir ao busto de Péricles (...).

(imagem retirada da net)


sábado, 11 de julho de 2009

(aspereza...)

Era o obscuro dia,
parindo a fosca noite;
devassas crónicas
de uma luz fugidia,
anoitecendo-se
nas frugais marés
de um Verão acre.
(imagem retirada da net)
(originalmente publicado no meu blogue sopro divino)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O mesmo

E é sempre o mesmo,
O mesmo plano,
O mesmo modo,
Esse é o mesmo,
E não é engano,
Muito próximo do todo,
O que move o mesmo.
O mesmo é aquele que sempre espera,
Espera morta, que não o chega,
Roda em esfera,
E aceita cega,
A ilusão do mesmo.

terça-feira, 19 de maio de 2009







Entre dois quartos de lua,
rarefiz-me.
subi, montanha acima,
a palavra, a busca.
Entre dois sonhos,
refiz a busca,
não te marquei
ou sublinhei.
Entrei, em vão,
súbita presa do meu falar.
Ficou o muro por escrever,
muro que lamentei,
entre gritos vazios,
quase brancos de memória.
A busca é surda,
o manual fechado.
Passou o tempo das folhas maduras,
dos lápis nascentes.
Hoje, tudo se fechou,
e o silêncio reveste
as lombadas...
(poema retirado do meu blogue sopro divino)
(imagem retirada da net)

sábado, 25 de abril de 2009

Um Príncipe

Vem conduzir as naus, as caravelas,
Outra vez, pela noite, na ardentia,
Avivada das quilhas. Dir-se-ia
Irmos arando em um montão de estrelas.
(Camilo Pessanha in Clépsidra)



Nos caminhos em que suavam as velas,

em azuis desertos, quási sólidos,

vinham e iam volteios de cigarras,
em bamboleantes cercos de miragem.

Anil fundido, estrelas sempre,

azul alternando-se

ante rostos cavados pela maresia.

Ao fundo,

entre dois pontos,

um sonho,

dum Príncipe

com um só anelo:

arar as águas,

cultivar a liberdade!
(imagem retirada da net)






segunda-feira, 6 de abril de 2009

entrelinhas...

Escrevo para me não esquecer
de que devo escrever.
Raspo o suor,
escorro-o sobre as letras,
escavadas.
Ainda não encontrei a palavra,
a maldita, mal dita palavra.
Sobro-me: entre dois pontos,
uma vírgula ou um ponto final.
As mãos, a cabeça,
ferem-se duma esmola
de expressão.
O português foge-me,
escapa-se-me entre dois,
três dedos.
Remiro,vejo e revejo.
Onde está o que desejei?
O início?
Par de bandarilhas, uma pega de caras,
eis tudo.
Uma vaga volta à arena, sem triunfo ou ânimo, talvez.
(...)
Eis-me aqui.
Todo.

(originalmente publicado no meu blogue sopro divino)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A língua secreta


Ela disse papel quando queria dizer tesoura.
Ele retribui-lhe o jogo de palavras dizendo pedra
quando queria mesmo falar em flor.
Ela olhou para o jovem num brilho intenso de sol,
mas suas palavras vagaram pelo céu da boca
de forma burocrática e sem sal...
Ele quis comentar com a garota de seus sonhos
que os olhos dela eram profundos como o mar,
mas as suas palavras ficaram congeladas
apenas na superficialidade de um iceberg
vagando sem destino num copo de cerveja polar...
A história de homens e mulheres
é escrita mais com silêncios do que discursos;
mais com dúvidas do que certezas.
Quando a boca da amada diz não,
seus olhos contraditórios dizem talvez;
quando ele investe na conquista,
teme o não da bela, adormecida em seu sonho,
mais do que a ira de um exército de bárbaros,
destruindo tudo o que encontram ao redor.
Entre o pensar, o falar e o escrever
há uma estranha língua secreta
que ninguém ousa psicografar,
e que nenhum iniciado poderá decifrar.
Somente os poetas e os loucos veem algo
onde nada é dito nem declarado...
Tudo é subentendido, implícito, tácito...
Apenas os sonhadores vivem para acreditar
que as palavras podem transformar o mundo.
Há uma língua secreta a ser decodificada
toda vez que alguém se cala dentro si
e apenas consigo mesmo consegue dialogar.
Há um código secreto vivo na linguagem
toda vez que alguém diz algo sem sequer falar...

José Antonio Klaes Roig

Obs.: Imagem extraída da internet, endereço abaixo
http://proudworld.blogspot.com/2008/02/menina-trabalhadora-e-senhora-dvida.html

poema em enredo

(imagem retirada da net)


(...) encontrar um poema
nos bolsos duma gabardina amiga.
Entrevê-lo entre duas gargalhadas,
ao entardecer d'avenida,
entre pombos e migalhas.
Vislumbrar o poema,
ingeri-lo de cor,
derramá-lo em cascatas.
Circulará hoje esse poema?
Fará leitura geográfica
em cátedra impante?
Ou será um bilhetinho,
passado à socapa,
entre dois trejeitos
e um bafiento sorriso?
(inspirado em moriana)
(publicado no meu blogue www.soprodivino.blogspot.com)

quarta-feira, 25 de março de 2009

O Príncipe Com Sorte


A morte, a sorte, o norte...
Sem sorte na vida,
O Eu Lírico foi para o Norte,
Lá desposou a Sorte,
Rompeu com a Morte
Que estava a rondar seus caminhos...
O príncipe consorte esqueceu
Que não adianta fugir do desconhecido;
Aonde quer que se vá
Nossas pegadas denunciam nossos sonhos,
Nossas palavras delatam nossos pensamentos.
Se a Morte mora mais ao Sul
De nada vale seguir no caminho oposto,
Pois Deus em sua infinita grandeza
Propõe-nos deixar de lado a orientação por aparelhos,
E seguir em frente dotado apenas da intuição...
A verdadeira bússola mora em nós
E seu pólo magnético oscila de quando em quando...
Quando mais se segue adiante, mais em círculos se anda,
Em breve voltaremos ao ponto de partida,
Onde a morte, a sorte e o norte,
Para alguns desorientados, pode ser uma revelação...
Com sorte, o príncipe um dia encontrará
Seu reino mais próximo do que pensa...
Longe dos pólos, mais próximo dos trópicos...
O que nos torna distantes de nossos sonhos
É não saber desvendá-los em tempo
Dentro do próprio coração...

José Antonio Klaes Roig

domingo, 22 de março de 2009

Gravura

Podias ficar com uma imagem;
a luz das palavras, dos sons
trocam o signo.
Lugar onde,
de onde,
sujeito sem objecto.
A partida nem saiu do molhe,
a figura,
a imagem,
o retrato,
descansaram sobre o aparador,
escondidas em memórias
empoeiradas
num amanhã insone.
(vd. fig. inclusa)

terça-feira, 17 de março de 2009

A corda



A corda amarra,


Faz laço, e lança longe.


A corda acorda a moça,


E a moça grita, a corda salta.


E bate, a moça chora.


A corda enrola, e o desgosto,


Ela envolve o pescoço,


A moça grita e chora.


A corda puxa, a moça suspira,


E a corda sobe, e desce, e sobe, a moça morre.
(Imagem extraída da net)

terça-feira, 10 de março de 2009

Enigmático Poema


A roda da existência está sempre a girar
enquanto o grande redemoinho do tempo
brinca de ciranda com o espectro solar...

O sono profundo do céu
ao mar dos sonhos tragar,
mergulhar em um outro mundo
e em estrangeiro à tona regressar...

O sono profundo e o mergulho mortal
nas profundezas da alma e dos temporais...
Amar é viver como a aranha que tece
seu imenso emaranhado de versos
para a mosca das horas aprisionar...

O amor é um pequeno círculo fechado
de onde a pomba branca não consegue voar...
Vejo um mundo imenso nas entrelinhas
da palma da mão da mulher amada...
Nas linhas imaginárias entre o sonho e a paixão
Caminho descalço entre a terra do fogo
e o tormentoso viver sem te mirar...

José Antonio Klaes Roig

segunda-feira, 9 de março de 2009

soneto ao quase-voo...

(imagem retirada da net)

Bailarina de papel,
volteias fincada
num velho burel,
em risos de nada.

Rodeias, giras, sobes.
Quem irá cinzelar,
em cisco ouro, cobre,
vórtice assim lunar?

Num hirto espaço,
tinta tuas mãos
de grácil harmonia.

Louca, ágil, rodopia!
Corpos mortos, vãos;
sinistro, fatal passo...



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

...rua

Sonhei uma álea,
quiosque de pastiches,
tinta-da-china,
linha quase dolorida.
Ao canto, numa frinja,
entre dois leões escapados do pó,
uma água-furtada espreita.
Para nada ou ninguém.
As quatro pessoas não passam;
sorriem ao nada,
ao infinitamente branco
dum enquadramento alegre,
entre gargalhadas espumosas.
Sempre uma sonhei assim a minha rua.
Qui-la assim,
assim ma deram.
Possuo-a
como o dedilhar,
amoroso, filigranado,
do mestre guitarrista,
na ternura envolvente do seu amor,
nos olhos que soerguem aquela álea,
a semiabrigam do sol,
lhe levam gotículas de água,
e suspiram de enlevo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A faca




A faca tem ponta,

Que conta,

E deixa tonta, a moça gela!

A faca corta

E espanta, depois entorta quando bate na porta,

E isto importa? A moça gela!

A faca cai,

Cai de ponta,

E aponta à porta,

A moça morta!


(Foto extraída da net)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Palíndromo amoroso


Eram estranhos...
Conheceram-se.
Por sete anos viveram juntos.
Separam-se.
Por sete anos ficaram distantes.
Reencontraram-se.
Eram estranhos...

José Antonio Klaes Roig

Obs.: imagem extraída da internet, endereço abaixo
http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao_artistica/0008.html

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

(...) transcrição...

"Sou a gaivota
que derrota
todo o mar tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto"


(José Carlos Ary dos Santos in As letras das canções)




Trepei ao poente,
trouxe o meu povo.
Êxodo letárgico,
a busca do sorriso.
Lentas,
gaivotas deslizantes,
em rotas de golfinho.
Inquieto, aquele povo-gente,
mirava um susto de mar irado.
Lobriguei caminhos,
atalhos de fuga.
Alguém quis ciciar uma oração;
o tempo fora longo, dorido,
assim a prece.
Longe, a fúria dos donos das vidas.
Agora, podíamos estacar ali pra sempre.
Mas a revolta fora nossa,
partiríamos menos amarrados,
mais nós!
Assim seria,
entre vagas,
entre medos,
entre tanto!!

(foto extraída da net)


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

nação, pátria

Para lá...
Sentou-se no lusco-fusco
entre duas pedras de maresia.
Um vento de além-vida
cobria-lhe gentilmente
os cabelos de sal.
Sentara-se ali
havia minutos;
trezentos e noventa anos antes;
uma memória vislumbrara
a nesga do porvir duma nação,
aquilo que a salvaria
de si mesma.
Um rei, um príncipe, um povo,
"uma Fé, um Império".
Sobrara o sonho, os cabelos salinos.
Um vento carregado de naus
enchia-lhe os pulmões;
o sentir
de uma História
que lhe era tão hereditária
como a cor dos cabelos de sal.
Uma Nação fora para lá de Alexandre,
no seu regresso trouxera o esquecimento
a que nem Alexandre fora votado.
"Malhas que o Império tece..."

Publicado por Jaime A. residente em Lisboa, Portugal, latitude e longitude: 38º72" Norte e 9º14" Oeste

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Mundo Ovo II



Meu mundo cabe num ovo,
Um ovo não cabe em meu mundo.
Contrários e contraditórios,
O mundo e o ovo,
Ora abrigo, ora prisão.
Ambos geram vida e descobertas.
O ovo de Colombo lembra a América,
Ovo de Páscoa, Anunciação...
Um novo olhar sobre um novo horizonte –
O sol parece imensa gema
De um gigantesco e infinito ovo...
Nem todo ovo gera pinto,
Nem todo pinto gera mundo...
Nem todo mundo permite que ovos
Consigam gerar vida
Nem toda vida almeja o vôo...
Amar é sair da casca ou nela se aprisionar.
Tudo depende de nossa forma de ver
O mundo, o ovo e o amor...

José Antonio Klaes Roig

residente em Rio Grande - Brasil.
latitude e longitude: 32º01'59.51" Sul e 52º05'55.01" Oeste.

Obs.: imagem extraída do endereço abaixo
http://coqueteclando.wordpress.com/2007/12/

sábado, 20 de setembro de 2008

Objetivo do blog GPS Literário

O que é um GPS?
Na verdade, sigla inglesa que significa Sistema de Posicionamento Global por satélite, em que a triangulação de 3 ou mais satélites determinam a posição de um objeto pelo mundo afora...
Segundo a enciclopédia virtual Wikipédia: "O Sistema de Posicionamento Global, popularmente conhecido por GPS (do acrónimo do inglês Global Positioning System), é um sistema de posicionamento por satélite americano, por vezes incorrectamente designado de sistema de navegação, utilizado para determinação da posição de um receptor na superfície da Terra ou em órbita. Existem atualmente dois sistemas efetivos de posicionamento por satélite; o GPS americano e o Glonass russo; também existem mais dois sistemas em implantação; o Galileo europeu e o Compass chinês".

O que é um GPS Literário?
No caso do GPS Literário, a proposta é trabalhar com a idéia de emissor e receptor, em que o blog é o canal aberto que poderá reunir poetas e escritores de língua portuguesa, que estejam navegando pelo ciberespaço, pelo mundo afora, e que queiram contribuir para a troca de experiências e textos poéticos...
A idéia surgiu a partir de conversas pelo MSN entre José Antonio Klaes Roig (eu), poeta e escritor, com a poet'amiga Ana Cristina Matias, residente em Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil, que graduanda em Letras gosta e pesquisa muito sobre a literatura portuguesa.

Observação: Imagem acima, extraída da internet, através do Google Earth, mostrando a localização das cidades de Rio Grande e São José do Norte, de onde Ana e eu somos originários, embora ambos estejam atualmente residentes entre as coordenadas de latitude e longitude: 32º01'59.51" Sul e 52º05'55.01" Oeste.